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Premiada no Shell, figurinista vence processo por racismo

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Figurinista Ananda Almeida - Crédito da Foto: Jorge Oliveira / Divulgação
Figurinista Ananda Almeida - Crédito da Foto: Jorge Oliveira / Divulgação

Ananda Almeida quase abandonou a faculdade após episódio envolvendo um professor 

A trajetória da figurinista Ananda Almeida quase foi interrompida ainda na universidade, em um caso marcado por reviravoltas dignas de uma grande biografia. Em 2018, enquanto estudante do curso de cenografia e indumentária da Unirio, ela relata ter sido vítima de racismo por parte de um professor dentro da sala de aula, episódio que a fez cogitar abandonar a formação e a carreira artística. No entanto, nos últimos dias, duas decisões importantes mudaram o rumo desta história: a sentença favorável na ação judicial contra a universidade e a conquista do Prêmio Shell de Melhor Figurino pelo espetáculo Negra Palavra Poesia do Samba, na edição de São Paulo.

Segundo relato da artista, na época, o professor teria feito comentários depreciativos sobre seus desenhos diante da turma, questionando sua capacidade e sua presença no curso. “Ele dizia, em tom de piada, que não entendia porque a faculdade tinha tirado o teste de habilidade específica, que meu desenho era ruim e que agora a universidade aceitava qualquer um”, lembra. A situação se agravou durante uma aula, quando, de acordo com Ananda, o professor interferiu diretamente em seu trabalho e sugeriu que ela voltasse para sua cidade natal, Três Rios. Em seguida, veio o episódio que ela classifica como racista.

“Ele saiu da sala, pegou água no bebedouro, voltou, segurou no meu cabelo e perguntou o que aconteceria se molhasse”, relata. A cena aconteceu diante de toda a turma. “Eu fiquei sem reação. Já estava engolindo tudo aquilo como se fosse piada, até aquele momento.” Após o ocorrido, ela deixou a sala chorando e cogitou abandonar o curso. Dias depois, incentivada por outros estudantes, decidiu formalizar uma denúncia junto à coordenação da universidade.

O caso deu origem a um processo administrativo interno que, segundo ela, não teve desdobramentos efetivos. “O professor teve acesso a minha carta denúncia e me mandou mensagem no whatsapp falando que podia me pedir desculpas e que aquilo era uma brincadeira, que ele só brincava com quem ele gostava e por isso tinha brincado comigo. Eu decidi não responder e manter o processo administrativo”, comenta.

Ananda revela que enfrentou resistência da instituição. “Uma das primeiras pessoas que me atendeu falou: ‘você tem certeza que quer denunciar quem pode te dar emprego depois?’”, afirma. Em outro momento, diz ter sido orientada a apresentar “testemunhas brancas” para validar seu relato. A universidade concedeu apoio psicológico para a estudante por seis meses. “O processo administrativo foi doloroso. Eles me encaminharam para um psicólogo com prazo de seis meses e depois eu precisei arcar com o tratamento e os remédios sozinha porque esse episódio acarretou por muito tempo na minha vida e infelizmente acarreta até hoje”, confessa.

Sem solução no âmbito da instituição, Ananda decidiu levar o caso à Justiça. Foram abertos dois processos: um contra o professor e outro contra a universidade. O docente foi absolvido, sob o entendimento de que a situação se trataria de uma brincadeira.

O segundo processo teve baixa definitiva em 17 de março de 2026. Na decisão, a Justiça reconheceu a prática de racismo no episódio, destacando que “o humor racista é fundado na perpetuação de relações de poder e exclusão” e que o toque não autorizado do professor no cabelo da aluna evidenciou “a ausência de respeito à sua individualidade”. A sentença também aponta que, no contexto da relação hierárquica entre professor e estudante, a artista teve seu pertencimento ao espaço acadêmico colocado em xeque, concluindo que os fatos configuram ato ilícito atribuível à universidade.

Para o advogado de Ananda, Gabriel Wilwerth, a decisão representa “um reconhecimento oficial de que nenhuma forma de racismo pode ser aceita, inclusive o chamado ‘recreativo’, especialmente em um espaço público como a universidade”.

Recém formada, Ananda Almeida comemora o alívio da justiça alcançada e o reconhecimento profissional, coroado com o Prêmio Shell na categoria Figurino, pelo espetáculo Negra Palavra Poesia do Samba. “Foi uma virada de chave. Me formar, ganhar o processo e receber esse prêmio é a validação que eu precisava pra seguir acreditando em mim e ver que nada foi em vão”, conclui.

Premio Shell de Melhor Figurino - Ananda Almeida e Raphael Elias - Foto Alessandro Costa

Premio Shell de Melhor Figurino – Ananda Almeida e Raphael Elias – Foto Alessandro Costa

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