Vanessa Haddad
Mulheres, celulite e o método Bodyincision: o que muda quando o tratamento vai além da superfície
“Eu tinha um grande problema de autoestima devido à grande quantidade de celulite. Eu nem ficava de biquíni na praia e até mesmo com o meu parceiro, eu tinha vergonha de ficar sem roupa com luz acesa. Isso realmente me frustrava muito e minha autoestima era zero”, conta a empresária Cristiane Erce Batista, carioca radicada em São Paulo. Antes de chegar ao Bodyincision, ela tentou outros caminhos. “Já fechei três, quatro pacotes em diferentes lugares, de massagens modeladoras, entre outros tipos de procedimentos que diziam que eu iria ter o resultado que eu quis. Porém, eu não obtive”, lembra.
A história de Cristiane está longe de ser exceção. Estudos indicam que algo entre 80 e 95 por cento das mulheres terá celulite em algum momento após a puberdade, independentemente do peso ou da rotina de exercícios. Embora seja considerada uma condição benigna do ponto de vista médico, o impacto emocional é significativo: pesquisas apontam que muitas mulheres mudam roupas, hábitos sociais e até comportamento nas redes por causa dos “furinhos”.
Por que quase toda mulher tem celulite?
“Do ponto de vista médico, a celulite é chamada de lipodistrofia ginóide”, explica a médica que aplica a técnica Bodyincision, Dra. Marcela Fiel, inscrita no CRM SP sob o número 230714 e RQE 117544. Segundo ela, o problema não se resume a “gordura a mais”. “O aspecto de ondulações surge de alterações na camada de gordura logo abaixo da pele, em estruturas chamadas septos fibrosos, que funcionam como traves puxando a pele para baixo, enquanto os lóbulos de gordura empurram para cima”, detalha.
O corpo feminino é especialmente suscetível à celulite. “A mulher tem, fisiologicamente, mais gordura subcutânea e septos fibrosos mais verticais e paralelos em glúteos e coxas, o que favorece o aparecimento dos furinhos”, afirma Dra. Marcela, especialista em Clínica Médica. Os hormônios também entram em cena. “O estrogênio influencia onde a gordura se acumula, aumenta a retenção hídrica e interfere na organização do colágeno na pele”, completa.
A ideia de que celulite é sinônimo de preguiça ou desleixo não se sustenta na literatura. “Hoje sabemos que é uma condição multifatorial, que envolve alterações dos septos fibrosos, distribuição da gordura no subcutâneo, qualidade da pele e flacidez, microcirculação, hormônios e genética”, resume a médica. Na prática, isso explica por que mulheres magras, ativas e com alimentação equilibrada também podem apresentar graus importantes de celulite.
Cremes, massagens e o limite do efeito superficial
Se por um lado a ciência mostra um quadro complexo, por outro o mercado de estética muitas vezes oferece soluções simples demais. Cremes, massagens e aparelhos prometendo “fim da celulite” em poucas sessões movimentam um segmento bilionário. As evidências, porém, apontam que esses recursos têm alcance restrito. “Cremes e massagens, isoladamente, não conseguem tratar a arquitetura profunda da celulite. Muitas pacientes chegam frustradas ao consultório depois de inúmeros protocolos superficiais”, conta a médica.
Isso não significa que eles não tenham lugar. Para graus mais leves, mudanças no estilo de vida combinadas com melhora da qualidade da pele podem fazer diferença. “Nos quadros discretos, medidas como exercício, alimentação equilibrada e bioestimuladores de colágeno já podem trazer uma boa resposta. Mas, conforme a gravidade aumenta, só isso costuma não ser suficiente”, afirma Dra. Marcela.
Quando o tratamento mira a causa mecânica da celulite
A partir dessa compreensão, ganharam espaço técnicas minimamente invasivas que atuam nos septos fibrosos, caso da subcisão e de protocolos que seguem a mesma lógica. “A ideia é atuar diretamente nas traves de tecido conjuntivo que puxam a pele para baixo. Ao liberar esses septos, conseguimos suavizar as depressões típicas da celulite”, resume a especialista. Estudos e séries de casos descrevem melhora significativa e sustentada em pacientes bem indicadas, especialmente em graus mais avançados.
É nessa família de procedimentos que se insere o método Bodyincision. “O Bodyincision é um procedimento minimamente invasivo, com anestesia local, em que mapeamos as áreas com a paciente em pé e fazemos o descolamento controlado dos septos fibrosos”, explica Dra. Marcela. A paciente permanece acordada o tempo todo. “Isso nos permite avaliar o comportamento da pele em diferentes posições e ajustar os pontos de tratamento durante o procedimento”, diz.
Nos pós, entram cuidados que vão além da maca. “Usamos bandagens elásticas por alguns dias, short compressivo, medicação prescrita e orientamos sobre posição para dormir, retomada de exercícios e proteção solar. Hematomas e inchaço são esperados e fazem parte do processo de cicatrização”, afirma a médica.
Indicação, riscos e limites da técnica
Do ponto de vista científico, a Bodyincision se apoia no racional da subcisão, técnica descrita em dermatologia e cirurgia plástica para corrigir depressões na pele, como cicatrizes e celulite em graus mais avançados. Publicações relatam alta satisfação e melhora visível do relevo cutâneo quando o método é usado em pacientes adequadamente selecionadas.
Isso não significa ausência de risco. “Mesmo sendo minimamente invasivo, é um procedimento médico. As intercorrências mais comuns incluem equimoses, hematomas, seroma e, em alguns casos, hiperpigmentação local temporária”, ressalta Dra. Marcela. O protocolo inclui acompanhamento próximo no pós procedimento. “Se surge qualquer alteração fora do esperado, avaliamos, pedimos exames se necessário e ajustamos a conduta”, completa.
O Bodyincision costuma ser cogitado para mulheres adultas com celulite clinicamente evidente, sobretudo quando há depressões marcadas e histórico de pouca resposta a medidas superficiais. “O principal critério é o olhar clínico. Precisamos diferenciar celulite de outras condições, como lipedema, avaliar flacidez, volume de gordura local, hábitos de vida e possíveis doenças associadas”, afirma a médica. Algumas condições, como infecções ativas na pele, distúrbios de coagulação e uso de anticoagulantes, exigem cautela ou podem contraindicar o procedimento. “A avaliação é individual e trabalhamos com a ideia de melhora, não de perfeição”, reforça.
“Minha autoestima era zero”: o antes e depois de Cristiane
Enquanto a linguagem médica explica o mecanismo, a trajetória de Cristiane mostra o impacto no cotidiano. “Pesquisei fotos, resultados, até achar a clínica. Fui bem orientada pelo médico, que me explicou com muita ênfase e muita calma tudo o que eu iria passar. Eu me senti muito segura e fiz o procedimento”, conta.
A consulta, segundo ela, foi um ponto decisivo. “A consulta foi extremamente maravilhosa. Não fiquei sozinha na sala, o que poderia me deixar mais envergonhada. Tive dois profissionais que me deixaram totalmente à vontade para falar sobre a minha celulite”, lembra. “A equipe me ligava, perguntava se eu estava bem, se eu estava com dor, se podia enviar foto. Eu fui super bem assistida.”
Na hora do procedimento, a mistura de ansiedade e expectativa apareceu. “No dia, eu confesso que fiquei bem ansiosa para ver logo o primeiro resultado com a técnica. Eu lembro muito bem de todos os detalhes, das seringas na prateleira, e pensava: para que serve isso, para que serve aquilo. Mas tudo foi explicado de maneira muito transparente, e isso me tranquilizou”, diz a empresária.
O pós procedimento, segundo ela, foi mais tranquilo do que imaginava. “Senti leves dores, até porque foi mexido, mas isso já tinha sido explicado. Todos os dias eu tive o acompanhamento da equipe, por mensagens, ligações, fotos e vídeos. Eles me explicavam o que estava normal e o que precisava de atenção”, relata. O impacto na autoestima veio na sequência. “Hoje eu me sinto livre, me sinto maravilhosa, me sinto linda. Isso não impactou só o meu corpo, impactou as roupas que eu uso, o meu dia a dia e a minha autoconfiança com o meu parceiro”, afirma.
Perguntada sobre que conselho daria a alguém pensando em tratar a celulite, Cristiane é direta. “O meu conselho seria: sim, faça, desde que seja com uma equipe em quem você confia. Para mim, foi muito tranquilo, tratou aquelas depressões que eu tinha. Eu mesma pretendo fazer outras áreas quando for o momento certo”, diz.
Celulite, escolha informada e corpo real
Tanto a fala da especialista quanto a experiência da paciente apontam para a mesma direção: informação detalhada, expectativa realista e segurança devem vir antes de qualquer promessa. Técnicas como o Bodyincision podem trazer uma melhora expressiva na aparência da celulite para casos selecionados, mas não substituem o cuidado contínuo com hábitos de vida nem anulam a complexidade da relação das mulheres com seus corpos.
Entre o marketing de soluções rápidas e a realidade de um procedimento médico, há um espaço importante para a conversa franca. Ele começa com perguntas como estas: o profissional é habilitado, a clínica é regularizada, os riscos foram explicados, as fotos de resultados são realistas e datadas. E segue com um lembrete que vale para qualquer pessoa que se olha no espelho e enxerga a celulite antes de enxergar a própria história: aquilo que vemos na pele é comum, multifatorial e, cada vez mais, assunto de saúde, comportamento e autoestima, não de culpa.
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