Saude e Beleza
A Doença da Vergonha: Do reconhecimento ao tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo
Psiquiatra Raíza Alves Pereira explica como a vergonha pode ocultar sintomas e atrasar o diagnóstico e o tratamento do TOC
Dúvidas incessantes sobre ter deixado a porta destrancada ou a torneira aberta. Medo de contaminação que leva a higienizar as mãos até feri-las. Revisar mentalmente conversas ou acontecimentos para ter certeza de que não disse algo inadequado ou não cometeu algum erro. Evitar dirigir por medo de atropelar alguém sem perceber. Contar passos ou rezar em uma sequência específica. Tocar repetidas vezes uma maçaneta, acender e apagar uma lâmpada ou repetir uma oração até sentir: “Ufa! Agora ficou certo”. Evitar pegar um bebê no colo por medo de machucá-lo. Pensamentos sexuais involuntários, profundamente repugnantes e incompatíveis com seus valores.
Segundo a psiquiatra e coordenadora do Programa TOC e Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo da Holiste Psiquiatria e Mestre em Medicina e Saúde, Raíza Alves Pereira, à primeira vista, essas experiências parecem não ter relação entre si. Podem soar como manias ou idiossincrasias. “No entanto, todas podem ser manifestações do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Trata-se de uma condição marcada pela presença de obsessões — pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos, indesejados e recorrentes — frequentemente acompanhadas de compulsões, comportamentos ou atos mentais realizados na tentativa de aliviar o sofrimento que provocam”, explica.
De acordo com a médica, o TOC costuma surgir cedo, muitas vezes em fases decisivas do desenvolvimento, como a infância e a adolescência. “Apesar disso, seu reconhecimento costuma demorar anos”, enfatiza a especialista da Holiste Psiquiatria. Em um estudo norte-americano com adultos com TOC, o intervalo médio entre o início do transtorno e o diagnóstico foi de aproximadamente sete anos. Assim, o adoecimento atravessa diferentes etapas da vida, interferindo na trajetória escolar, nos relacionamentos, na inserção profissional e na autonomia. A psiquiatria ressalta que o impacto sobre a qualidade de vida é comparável ao observado em pessoas com esquizofrenia. “Ainda assim, a doença continua sendo lembrada, no imaginário popular, quase exclusivamente pela caricatura da “mania de limpeza”. Quando aquilo que uma pessoa vive não se parece com essa imagem, reconhecer-se como alguém que pode ter TOC torna-se ainda mais difícil”, salienta.
A vergonha é um componente central do TOC. A maioria dos pacientes reconhece que seus pensamentos são excessivos e incongruentes com o que acreditam. Muitos passam a interpretá-los como evidência de um defeito moral, como se um pensamento tivesse o mesmo peso que uma ação.
É frequente que o conteúdo das obsessões envolva justamente aquilo que a pessoa mais valoriza: seus filhos, sua fé, sua moralidade, sua responsabilidade ou sua identidade. Por isso, pensamentos intrusivos podem ser interpretados não como sintomas, mas como revelações sobre quem se é. O transtorno deixa de produzir dúvidas apenas sobre o mundo e passa a produzir dúvidas sobre si mesmo: “E se eu for uma pessoa ruim?”, “O que é meu e o que é do TOC?”. A vergonha alimenta o isolamento, favorece a ocultação dos sintomas e pode fazer parte do ciclo de manutenção do transtorno, reforçando as compulsões.
Há, de um lado, sintomas difíceis de revelar e, do outro, manifestações clínicas que nem sempre são investigadas. Esse desencontro pode adiar por anos o diagnóstico e o tratamento adequados. A vergonha costuma ser uma das primeiras barreiras ao tratamento do TOC. Entender que pensar em algo não é o mesmo que desejar ou agir, e que esses pensamentos são manifestações de um transtorno, não reflexos do caráter, pode transformar a maneira como os pacientes se relacionam com seus sintomas. Tratar esses sintomas começa por torná-los reconhecíveis e permitir que aquilo que permaneceu escondido por anos seja finalmente dito.
(Crédito: Divulgação/Mkt da Holiste Psiquiatria)
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