Saude e Beleza
Nem sempre a dor está no procedimento: como o cérebro influencia a experiência no consultório odontológico
Ansiedade, memória emocional e percepção da dor ajudam a explicar por que algumas pessoas vivem o atendimento odontológico de forma muito mais intensa do que outras. Especialistas afirmam que compreender esse comportamento tem transformado a forma como a odontologia cuida dos pacientes.
Bastava pensar em uma consulta odontológica para que a aposentada Suely Medalskas ficasse apreensiva. Durante muitos anos, o medo do dentista fez com que ela deixasse de realizar consultas preventivas com a frequência necessária, adiando tratamentos importantes.
“Eu tinha medo de dentista e, por isso, não tinha uma boa frequência. Isso me custou alguns problemas. Hoje vou ao dentista a cada seis meses, sem nenhum pânico. Os profissionais deixam você muito segura durante o tratamento, explicam tudo o que vão fazer. Meu medo acabou”, conta.
A história de Suely representa uma realidade comum nos consultórios odontológicos.
Segundo uma revisão científica publicada no Journal of Dental Anesthesia and Pain Medicine, aproximadamente 15% dos adultos apresentam ansiedade odontológica, enquanto cerca de 12% convivem com níveis elevados de medo capazes de interferir diretamente na procura por tratamento. Esse receio cria um ciclo difícil de romper: quanto maior o medo, maior a tendência de adiar consultas; quanto mais tempo o paciente espera, maior costuma ser a complexidade do tratamento necessário.
“O que observamos diariamente é que muitos pacientes chegam ao consultório já em estado de alerta. Em alguns casos, a ansiedade começa dias antes da consulta. Eles ainda nem passaram pela avaliação, mas o corpo já reage como se estivesse diante de uma situação de risco”, explica o cirurgião-dentista Dr. Alexandre Parreira, especialista em Periodontia, Implantodontia e Odontologia do Trabalho, responsável técnico pelo Instituto Novus Odontologia Moderna, em São Bernardo do Campo, e habilitado pelo Conselho Regional de Odontologia (CRO) para a utilização da sedação consciente inalatória.
Essa resposta tem uma explicação científica.
Segundo a a psicóloga e neurocientista Vanessa Queiroz, experiências negativas vividas anteriormente podem permanecer registradas na memória emocional e influenciar a forma como o cérebro reage diante de novas situações semelhantes.
“Quando o cérebro associa determinado contexto à dor ou ao sofrimento, ele pode ativar estruturas responsáveis pela resposta ao medo, como a amígdala cerebral. Isso faz com que o organismo entre em estado de alerta antes mesmo de qualquer procedimento acontecer. A frequência cardíaca aumenta, a musculatura fica mais tensa e a expectativa de dor cresce. Muitas vezes, a percepção do desconforto passa a ser maior justamente porque o cérebro já espera sofrer”, explica.
Essa condição é conhecida como ansiedade antecipatória e não acontece apenas na odontologia. Ela também pode estar presente em exames médicos, procedimentos hospitalares e outras situações relacionadas à saúde.
No consultório odontológico, porém, ela costuma ter consequências importantes.
Pacientes muito ansiosos tendem a interromper tratamentos, cancelar consultas e procurar ajuda apenas quando a dor já está instalada.
“Isso faz com que problemas simples evoluam. Uma restauração que poderia ser resolvida rapidamente pode acabar exigindo um tratamento de canal ou até a perda do dente quando o paciente demora anos para procurar atendimento”, afirma Dr. Alexandre.
Além do impacto clínico, existe um reflexo importante na qualidade de vida.
A perda dentária compromete a mastigação, alimentação, fala e autoestima. Em pacientes idosos, por exemplo, dificuldades para mastigar podem limitar o consumo de alimentos mais nutritivos, afetando diretamente o estado nutricional e a saúde geral.
Por isso, compreender o comportamento do paciente passou a ser parte do próprio tratamento odontológico.
“A odontologia evoluiu muito nos últimos anos. Hoje entendemos que não basta resolver o problema clínico. É preciso oferecer uma experiência segura e confortável para que o paciente consiga cuidar da própria saúde sem medo”, explica o especialista.
Entre os recursos que vêm contribuindo para essa mudança está a sedação consciente inalatória, técnica para a qual o Dr. Alexandre possui habilitação específica junto ao Conselho Regional de Odontologia (CRO).
O método utiliza uma combinação de oxigênio e óxido nitroso administrada por uma máscara nasal. Durante todo o procedimento, o paciente permanece acordado, consciente e capaz de responder normalmente aos comandos do profissional, mas em um estado de relaxamento que reduz significativamente a ansiedade.
Outro diferencial disponível no Instituto Novus é a anestesia sem agulha por pressão, tecnologia que permite administrar o anestésico sem a utilização da seringa convencional.
Por meio de um sistema de alta pressão, o medicamento é aplicado diretamente nos tecidos, reduzindo um dos principais gatilhos emocionais presentes no consultório odontológico.
“A agulha representa um medo importante para muitas pessoas. Quando conseguimos eliminar esse fator, percebemos que o paciente relaxa muito mais rapidamente e todo o atendimento acontece de forma mais tranquila”, afirma Dr. Alexandre.
Essas tecnologias não substituem a necessidade de um diagnóstico cuidadoso nem são indicadas para todos os casos, mas representam ferramentas importantes para pacientes que apresentam ansiedade, medo de procedimentos ou histórico de experiências negativas.
No caso de Suely, conhecer uma equipe que priorizou acolhimento, informação e conforto durante o atendimento foi decisivo para mudar completamente sua relação com o dentista.
“Hoje faço minhas consultas regularmente, tenho meus dentes saudáveis e perdi completamente o medo de ir ao dentista. O ambiente é acolhedor, todos explicam cada etapa do tratamento e isso faz toda a diferença”, relata.
Para Vanessa Queiroz, esse tipo de experiência também modifica a forma como o cérebro interpreta futuras consultas.
“Quando o paciente vive uma experiência positiva, cria uma nova memória emocional. Aos poucos, o cérebro deixa de associar automaticamente o consultório ao sofrimento e passa a construir uma percepção de segurança. Esse processo ajuda a reduzir a ansiedade nas consultas seguintes.”
Mais do que incorporar novas tecnologias, especialistas acreditam que a odontologia vive uma mudança de paradigma.
O paciente deixou de ser visto apenas pelo problema que apresenta e passou a ser compreendido em sua totalidade, considerando aspectos físicos, emocionais e comportamentais que influenciam diretamente o sucesso do tratamento.
“A tecnologia trouxe equipamentos mais modernos e procedimentos cada vez mais precisos. Mas talvez o maior avanço tenha sido entender que cada paciente vive a dor de uma forma diferente. Quando acolhemos esses medos e oferecemos recursos para tornar a experiência mais confortável, aumentamos a adesão ao tratamento e incentivamos o cuidado preventivo, que é sempre o melhor caminho para manter a saúde bucal”, conclui Dr. Alexandre.
Quando o medo deixa de ser apenas um incômodo
Segundo o Dr. Alexandre, alguns sinais indicam que a ansiedade pode estar comprometendo a saúde bucal:
● Adiar consultas repetidamente.
● Procurar o dentista apenas quando sente dor intensa.
● Cancelar procedimentos por medo.
● Sentir sintomas físicos, como taquicardia, sudorese ou insônia antes da consulta.
● Interromper tratamentos antes da conclusão.
Nesses casos, conversar abertamente com o cirurgião-dentista é o primeiro passo para identificar estratégias que tornem o atendimento mais seguro e confortável.
(Fotos: iStock)
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