Teatro e Cinema
Sucesso na estreia de Nina Tomsic como diretora no teatro
Com trajetória marcada no audiovisual, atriz dá um novo passo na carreira ao dirigir “Angélica”
Conhecida por seu trabalho em produções como A Vida Pela Frente, Quanto Mais Vida, Melhor!, No Rancho Fundo, entre outros, a atriz Nina Tomsic inaugura uma nova etapa em sua trajetória artística: a estreia como diretora teatral. À frente de Angélica, espetáculo inspirado na obra da espanhola Angélica Liddell, a artista assume pela primeira vez a condução de uma montagem profissional. “Sempre tive esse impulso. Gosto muito de olhar as coisas de fora, pensar criativamente, mesmo como atriz eu sempre gostei de construir junto”.
Formanda em Artes Cênicas pela UNIRIO, Nina é uma das fundadoras e integrantes do Grupo Chão de Teatro, onde acumulou bagagem artística e ensinamentos sobre o olhar da direção: “Comecei sendo dramaturga e assistente do Gabriel Rochlin, e ali aprendi como guiar um processo. Cresci muito com a companhia. Acredito que o trabalho coletivo é a melhor forma de fazer arte”.
A estreia na direção marca a realização de um sonho. “Realizar Angélica parecia impossível, muito distante da minha realidade. Mas vi dentro da universidade pública um lugar onde tudo poderia acontecer. Foi muito especial usar o espaço da UNIRIO pra ensaiar e ser orientada, assistida, aplaudida. Angélica surge de anos de vontade e de sonho. Todas as referências da peça são minhas obras favoritas de uma vida. Quis começar chutando a porta, com toda a coragem e a cara de pau, munida de todas as coisas que mais acredito no mundo”, revela.
A peça, que lotou o Teatro Ziembinski, faz uma sátira sobre a raiva feminina. Dez mulheres estranhas, paranoicas, agressivas e deslumbrantes ocupam um teatro decadente, e fazem, há anos, um espetáculo para ninguém. Esta é a premissa de “Angélica”, que mistura humor ácido, textos de Angélica Liddell, números musicais, monólogos de autoficção e cenas criadas coletivamente. A peça busca levantar a questão: Como seria o mundo se as mulheres fossem exatamente aquilo que disseram que elas não poderiam ser?
Uma das marcas da direção de Nina Tomsic começa no processo criativo. Sua forma de conduzir passa por uma visão feminista de horizontalidade, que valoriza a colaboração em detrimento das hierarquias de poder. “O processo que eu acredito é coletivo. Nosso interesse é que todas possam falar e ouvir, pra que a gente construa um trabalho que reflita as diferenças e mais pessoas possam se conectar. Foi preciso criar um ambiente seguro onde as vulnerabilidades pudessem habitar, inclusive as minhas”, comenta.
Já em termos de linguagem, Nina aposta na ousadia: “desejo que minha obra seja desconfortável, estranha, diferente. Detesto teatro bípede, teatro textocêntrico, teatro acomodado. Meu humor favorito é o do desconforto, do tempo alongado. Que seja um desconforto bonito. Prezo muito pelas imagens, sou extremamente imagética. Tenho certeza que em toda obra que eu fizer, vou priorizar a imagem que diz, ao texto. Não sou muito das palavras”. Em relação às inspirações e referências, ela cita nomes como Pina Bausch, Roy Andersson, a companhia Peeping Tom e Leila Ka.
Segundo Nina, ser atriz a transformou em uma diretora mais clara e precisa, assim como a experiência na direção já modificou também a sua presença nos palcos e nos sets de filmagem. “Acho que atores e diretores devem estudar e se interessar pelo ofício do outro, mas tenho certeza que não é todo ator que consegue dirigir, ou todo diretor que consegue atuar. É necessário um temperamento, uma clareza mental, uma organização física, uma desenvoltura corporal, muito específica pra cada função. Nem todos vão conseguir exercer as duas, mas acredito que devem se experimentar na perspectiva do outro, como objeto de estudo”, afirma.
Relembre a trajetória
A relação de Nina Tomsic com o teatro começou cedo: aos oito anos de idade iniciou sua formação em cursos livres e, posteriormente, no Tablado. Seu primeiro trabalho profissional aconteceu em 2016, com o espetáculo Paz sem Rosto, premiado no festival internacional Kids on Stage, em Dresden, na Alemanha. Em 2018, ingressou no curso de Atuação Cênica da UNIRIO e fundou o Grupo Chão, coletivo que se tornou um espaço fundamental para o desenvolvimento de sua pesquisa artística e que nos últimos anos esteve em cartaz com o espetáculo Ensaio Ir Embora.
Paralelamente ao trabalho nos palcos, Nina construiu uma trajetória no audiovisual, participando de muitas produções da TV Globo e Globoplay como A Vida Pela Frente, Filhas de Eva, e Ritmo de Natal. Foi durante Quanto Mais Vida, Melhor! que iniciou sua parceria com o diretor Allan Fiterman, que voltaria a escalá-la em No Rancho Fundo e agora para um novo projeto, em fase de desenvolvimento. A atriz também esteve no elenco da série Da Ponte Pra Lá (HBO) e em 2025, circulou pelos teatros Sesc com Os Irmãos Karamazov.
Sonhos futuros
Para o futuro, Nina Tomsic sonha em conseguir viabilizar novos projetos autorais, inclusive para o audiovisual. “Quero ser uma criadora, independentemente de onde estiver. Sempre vou voltar ao teatro, minha casa, pra pensar em peças, mas o audiovisual é uma realidade muito valiosa pra mim. Ainda quero dirigir audiovisual, mas sinto que preciso aprender muito da parte técnica. Meu sonho verdadeiro é ter dinheiro pra produzir minhas ideias e poder chamar as pessoas que eu mais admiro pra estarem junto, pagando o que elas merecem. Quero me cercar de quem tem tanto respeito e obsessão pelo trabalho quanto eu”, conclui.
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